D. José Policarpo: a reacção de um modernista (II)
Como já fora prometido no post anterior, eis, pois, uma análise mais cuidada, atenta e mordaz sobre a reacção de D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, ao motu proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI, na sua já conhecida e infame carta episcopal aos sacerdotes da diocese da capital portuguesa.
D. José Policarpo: O Santo Padre reconhece que a notícia da publicação destas Normas provocou duas reacções: uma entusiasta aceitação e uma férrea oposição. Espero que, entre nós, nenhuma destas atitudes extremas prevaleça.
DJP: Considero que as pessoas que desejam celebrar a Liturgia do Missal de 1962 são, entre nós, uma minoria, embora permeáveis ao que se passa noutras Igrejas.
VO: D. José disserta sobre muitos disparates durante a sua missiva, mas esta asserção pejorativa é típica de um bispo hostil à Santa Tradição Católica e Apostólica: os fiéis agarrados à liturgia pré-conciliar são pouquíssimos (mesmo se as evidências apontam noutro sentido), de desconfiar e devem ser negligenciados nas suas aspirações legítimas, tudo em nome da «comunhão» e da unidade exterior da «assembleia orante».
O que importa é o Concílio, o Ecumenismo, a Colegialidade dos Bispos e a Liberdade Religiosa! Parece que D. José é uma daquelas pessoas para quem a Igreja de Cristo só começou em 1965 – se é que ele alguma vez acreditou na sua existência enquanto tal! - tal como também há aqueles que julgam que Portugal só começou em 1974.
DJP: É mais plausível a reacção daqueles que sentem desgosto, pensando que se pôs em questão o Concílio Vaticano II e o seu “ex libris” que é a Reforma Litúrgica. De facto, muitos de nós vivemos com grande entusiasmo a Reforma Litúrgica e o espírito de “aggiornamento” proposto pelo Concílio, e isso modelou a nossa forma de ser cristão e imprimiu o rosto às comunidades cristãs, que aprenderam a viver a Liturgia, não apenas como manifestação da fé pessoal, mas como expressão viva de um Povo que se reconhece como comunidade quando celebra a Sagrada Liturgia.
VO: Desgosto?! Até custa a crer que estas palavras vêm da boca de um sucessor dos Apóstolos!
Claro, é plausível esse «desgosto» para quem - como D. José - despreza a doutrina e os dogmas católicos, tal qual definidos infalivelmente pela Santa Madre Igreja. Deve ser, pois, com um pavor incontido que D. José vê retornar a Missa que modelou toda a fé, piedade e devoção católicas durante séculos e séculos e que, sob a égide modernista do Concílio Vaticano II, se tentou de toda a formar extirpar das nossas igrejas! Pois, que horror! O que este Papa se foi lembrar de fazer!
VO: Ou seja, «em espírito de comunhão com o Santo Padre», D. José impede todos os sacerdotes da diocese lisboeta de celebrar essa Missa anti-ecuménica (como veremos mais adiante), desrespeitando num espírito de rebeldia modernista o intento deste documento papal, não estivessem D. José e seus auxiliares frontalmente contra «as motivações que o moveram e os objectivos que pretende alcançar».
DJP: Os motivos e objectivos do Santo Padre - Antes de mais, o bem dos fiéis, daqueles que desejam a celebração segundo o Missal de 1962, porque procuram aí a dimensão sagrada do mistério da Eucaristia, que também podem encontrar na celebração segundo o Missal de Paulo VI, que devem em qualquer hipótese aceitar, porque continua a ser, para toda a Igreja, a forma normal de celebrar a Liturgia.
VO: Isto é, «esses fiéis medievais que desejam a celebração do rito tridentino, podem e devem se submeter às minhas crenças modernistas, portanto vão continuar a levar com a Missa conciliar e ecuménica, porque eu não estou agora para permitir que se hipoteque o espírito do Concílio nas minhas paróquias. Querem a Missa de sempre? Temos pena!»
DJP: O Santo Padre afirma mesmo que, vencidos os exageros de uma criatividade litúrgica mal concebida, é ocasião de imprimir nesta forma normal de celebrar a Missa toda a sua dimensão sagrada.
Claro, dimensão sagrada essa que se pode testemunhar regularmente pelas paróquias da diocese! É só assistir ou, como se diz agora, «participar» numa qualquer Missa diária em Lisboa (ou em qualquer outra localidade do país) para não só se testemunhar essa «criatividade litúrgica mal concebida», como também a total ausência e incapacidade dessa mesma Missa, celebrada segundo o rito reformado de Paulo VI, de conseguir sequer transmitir uma qualquer «dimensão sagrada», quanto fará uma expressão correcta da fé católica e um culto divino edificante, justamente devido a Deus Nosso Senhor!
Infelizmente, não é só D. José que está enganado neste ponto, é também o documento papal.
DJP: Diz Bento XVI na Carta aos Bispos: “Na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo…” celebrando “com grande reverência, em conformidade com as rubricas; isto torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste Missal”.
VO: D. José só papagueia aqui, para seu uso e proveito, as evidentes falhas deste motu proprio que insiste cegamente numa suposta «riqueza espiritual» e numa pretensa «profundidade teológica» que é absolutamente inexistente no Missal de Paulo VI, no que a fé católica diz respeito.
DJP: O “bem dos fiéis” é, pois, o único motivo que pode levar os Párocos a usar o Missal de 1962, pelo que um Pároco não pode impor à Paróquia o Missal de 1962 apenas motivado pela sua perspectiva pessoal.
DJP: O “bem dos fiéis” supõe discernimento: quantos são os fiéis, quais os motivos que os levam a pedir essa Liturgia; que formação cristã e litúrgica possuem. De facto o Santo Padre afirma: “O uso do Missal antigo pressupõe um certo grau de formação litúrgica e o conhecimento da língua latina; e quer uma quer outro não é muito frequente encontrá-los”.
Agora que me lembro, os nossos avós e bisavós eram todos doutos em latim!
DJP: Que ninguém se precipite nem facilite, na certeza de que encontraremos de modo justo, uma resposta para os fiéis que o pedirem, obedecendo aos critérios enunciados pelo Santo Padre, que não contemplam motivos como o simples gosto pelo antigo, o ser diferente, ou a forma de reagir a imperfeições na forma actual de celebrar a Liturgia.
VO: Veja-se bem: «Que ninguém se precipite nem facilite!». Se mais era preciso dizer quanto às intenções de D. José, ei-las nas suas provisões: «Eu é que mando aqui e a liturgia é o meu quintal! Quanto a vocês, nada de andar por aí a dizer Missas fossilizadas e anti-ecuménicas, senão vão ter de sofrer na pele!» Pois lá está, quod erat demonstrandum.
D. José implicitamente sugere também aos seus sacerdotes que os fiéis que desejam a liturgia de sempre são de desconfiar. Pudera, eles ainda acreditam em todos os dogmas da fé! Que coisa execrável!
DJP: Na história da Igreja, mais do que uma vez, as grandes reformas originaram divisões com grupos de cristãos que não as aceitaram. Foi o caso dos “velhos católicos”, a seguir ao Concílio Vaticano I, e o do cisma de Mons. Lefebvre, a seguir ao Concílio Vaticano II. Bento XVI confessa que a primeira abertura ao uso do Missal de 1962, feita por João Paulo II no “Motu Proprio” Ecclesia Dei, foi motivada pela crise lefebvriana e dirigia-se à Fraternidade S. Pio X. O seu “Motu Proprio” dirige-se não apenas aos seguidores de Mons. Lefebvre, mas a outros cristãos, mesmo jovens que, pensa o Santo Padre, se sentem atraídos por essa Liturgia. O horizonte de análise do Santo Padre é a Igreja toda.
VO: Além de insistir numa questão ultrapassada mas quase mítica nas mentes da Igreja pós-conciliar que é o suposto «cisma de Mons. Lefebvre», D. José diz que o documento papal dirige-se a toda a Igreja, mas como veremos, o Patriarcado de Lisboa não estará no horizonte de análise do Santo Padre, se depender do seu fiel bispo e príncipe da Igreja modernista.
DJP: Como já ficou dito, o sacerdote não deve pôr o acento no seu possível gosto pessoal pela Liturgia anterior à Reforma Litúrgica, mas no bem dos fiéis e de toda a comunidade a que preside. O seu gosto pessoal só poderá ter lugar na missa privada, “sine populo” (art.º 2º). Estas celebrações não podem ser aquelas que são anunciadas ao Povo de Deus, como programa normal da Paróquia. Essas “missas privadas” não devem ser anunciadas. A possibilidade de outros fiéis assistirem a elas, como está previsto no art.º 4º do “Motu Proprio”, não pode entender-se como divulgação pública das mesmas.
VO: Ora, por outras palavras, «Deus me livre se há ainda alguns fiéis que se lembrem de assistir às Missas privadas de algum padre extraviado e, ainda por cima, comecem a espalhar a notícia cá para fora!»
Quanto ao «gosto pessoal» do sacerdote, segundo D. José, este já se pode verificar nas Missas Paulinas! Aí já não há problema nenhum e até é louvável, pois o «Espírito sopra onde quer»!
DJP: Quanto às celebrações públicas para os fiéis que as pedirem, dada a não premência do fenómeno entre nós, que ninguém se precipite a conceder essas celebrações, sem um discernimento prévio, de preferência feito em presbitério e em diálogo com o Bispo.
VO: Um dos meus parágrafos preferidos.
D. José avisa, uma vez mais, que os fiéis que querem a liturgia pré-conciliar em Portugal ou não existem, ou são muito poucos e de desconfiar, portanto impõe uma vez mais aos seus sacerdotes que «discirnam» estes pedidos em «diálogo» com ele!
DJP: Os Párocos devem cuidar, particularmente, da qualidade e profundidade litúrgica dessas celebrações. O rito antigo, já muito distante da prática da Igreja, se não é celebrado com dignidade litúrgica, pode transformar-se em elemento desagregador do crescimento das comunidades.
Ah, porca miséria…
DJP: É claro na Carta do Santo Padre aos Bispos que o seu uso supõe o conhecimento da língua latina. Infelizmente muitos sacerdotes da nossa Diocese já não sabem o latim. Esses sacerdotes devem considerar-se não idóneos para presidir à Missa segundo o Missal de 1962.
VO: Muitos sacerdotes da diocese já não sabem latim! É sempre reconfortante recordar este triste facto. E a culpa é de quem? Se os seminários ensinassem mais escolástica e latim, e menos Marx e Descartes, talvez houvesse mais sacerdotes «idóneos».
DJP: Se as circunstâncias pastorais o aconselharem, devem procurar-se sacerdotes que o possam fazer dignamente.
VO: «Se as circunstâncias pastorais o aconselharem», ou seja, nunca.
DJP: Os nossos templos estão orientados para a celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI. Fica proibida qualquer tentativa de alterações dos espaços, sobretudo do altar e do presbitério, por causa da possibilidade de celebrar o ritual de 1962, que aliás já previa a celebração “versus populum”.
VO: Deixem-me rir! Então, «os nossos templos estão orientados para a celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI»? Pois, disso já nos apercebemos dolorosamente todos nós há imenso tempo! Agora, quem orientou as igrejas para a celebração da Missa conciliar, destruindo criminosamente altares, sacrários e presbitérios em nome da revolução (litúrgica e não só) foram bispos como o D. José! Para já não falar da construção de novas igrejas completamente protestantizadas - ou «ecumenicizadas», se preferirem - horríveis a todos os nossos sentidos humanos, como a nova basílica em Fátima.
Então, «fica proibida qualquer tentativa de alteração dos espaços»? Claro, Deus nos livre de rebentar com as novas mesas-altar!
D. José deseja, ainda para mais, que caso se celebre a Missa de sempre, se faça «versus populum»?
Kyrie eleison!
DJP: Os textos litúrgicos emanados da Reforma Litúrgica constituem a Liturgia normal da Igreja para todos. O uso de textos de antes da Reforma Litúrgica, é excepcional, motivado pelo “bem dos fiéis”, a discernir e analisar ponderadamente.
VO: Ou seja, se um sacerdote quiser, em seu pleno direito, celebrar na sua igreja o augusto sacrifício do altar segundo o rito tridentino (romano-gregoriano), essa possibilidade deve passar pelo escrutínio e pela censura de D. José!
DJP: Na nossa Diocese, peço aos Párocos que, por enquanto, não permitam essas celebrações dominicais, antes de uma análise profunda da situação. Se chegarmos à conclusão que o “bem dos fiéis” o exige, encontraremos, em conjunto, formas de lhes garantir, ao Domingo e dias festivos, celebrações de grande qualidade segundo a Liturgia antiga.
VO: «Se chegarmos à conclusão que o bem dos fiéis o exige» - isto é, nunca!
D. José pede, explicitamente, aos párocos de Lisboa que proíbam a celebração da liturgia antiga, faculdade essa que não lhe compete a ele!
DJP: Estejamos vigilantes para que esta abertura concedida pelo Santo Padre, tendo em conta o bem de toda a Igreja, não se transforme numa campanha em favor da Liturgia antiga. Isso seria contra a Reforma Litúrgica e todo o espírito do Concílio Vaticano II, e ignoraria o carácter extraordinário, claramente afirmado pelo Santo Padre, do uso do Missal de 1962.
VO: D. José não podia ser mais explícito quanto às suas intenções: nada de apologias à Missa de sempre! Isso é contra o espírito do Concílio! O que importa é continuar com a Missa conciliar e com a contínua e assídua protestantização das consciências católicas.
Aliás, devo dizer que não podia estar mais de acordo com o Patriarca de Lisboa: a Missa de sempre é contra o espírito do Concílio, porque o espírito do Concílio não é católico! Ponto.
DJP: Procuremos todos celebrar a Liturgia com qualidade, unção e sentido do Sagrado. Estas qualidades que aparecem a justificar os que procuram a Liturgia antiga, são aliás valores da Reforma Litúrgica, pois toda ela é expressão, em assembleia orante, da fé da Igreja.
VO: Valores da Reforma Litúrgica? D. José ou está confuso ou mente descaradamente. O que a Reforma Litúrgica, promovida pelo Concílio Vaticano II, trouxe à Igreja foi precisamente a falta de qualidade, a perca do sentido do Sagrado, e pior ainda, o declínio na fé e da prática católicas!
DJP: Assino esta carta com data de 14 de Setembro, no dia em que entra em vigor a Carta Apostólica do Santo Padre “Summorum Pontificum Cura”. Ela é a expressão da nossa comunhão obediente com o Santo Padre, mas também o assumir das nossas responsabilidades pastorais, como Pastor desta Igreja de Lisboa.
VO: O que D. José entende por «assumir as nossas responsabilidades pastorais», este blogue classifica de hipocrisia modernista.
Que Deus Nosso Senhor nos dê a graça e a paciência de perseverar na fé durante estes nossos tempos conturbados, em que a Sua Igreja se vê atacada por todos os lados, especialmente por inimigos desde dentro do seu seio.
D. José Policarpo é, entre outros, um lobo vestido com pele de cordeiro. Se dúvidas ainda houvesse, esta missiva aos sacerdotes da diocese de Lisboa dissipa-as de uma vez por todas.

5 comentários:
Cardinal Ciappi:
"In the Third Secret it is foretold, among other things, that the great apostasy in the Church begins at the top."
http://www.fatima.org/news/newsviews/010207fourthsecret.asp
Excelente artigo, caro amigo! De Dom José Policarpo nada há a esperar: com esta carta, desafia descaradamente o Santo Padre, pretendendo assumir a liderança dos hereges modernistas e progressistas que continuam a ocupar o interior da Igreja. Depois da morte do Cardeal Lustiguer,com o Cardeal Martini retirado e o Cardeal Mahoney muito enfraquecido pelos escândalos de pedofilia, eis Dom José Policarpo a chamar a si a liderança do cisma prático modernista.
Quanto a Portugal, meu amigo, temo bem que a infiltração e a depredação modernistas sejam ainda mais graves do que aquilo que já supunha: no nosso País, o ódio puro e simples de muitos bispos e padres e à Missa tradicional é chocantemente óbvio, e pelo seu ineditismo, merecedor de uma reflexão mais profunda.
ola
onde se pode assitir em lisboa uma missa no rito antigo?
Tendo tido formação catolica embora não estando dentro da questão das divergencias entre modernistas e tradicionalistas,li este post atentamente, e por curiosidade pergunto qual a relação que tem a Fraternidade de S. Pio X, que é aqui referida como celebrando a missa tradicional em Portugal, com a Igreja catolica oficial, liderada por D. José Policarpo. São um grupo de dissidentes ou estão integrados na Igreja Portuguesa participando nas suas actividades?
Já agora qual, na sua opinião, é o interesse real que existe entre os catolicos portugueses pela missa tradicional? Nunca vi nenhum catolico a manifestar esse interesse. Mesmo as pessoas mais velhas, parece-me a mim, já praticamente esqueceram a missa antiga e nem sequer sabem, na sua grande maioria, que ela ainda se celebra no mundo. Sinceramente parece-me que o numero de catolicos interessados no regresso da missa tradicional, em Portugal, é infimo, é absolutamente residual....admito no entanto perfeitamente que isso se possa dever a nunca terem tido contacto com ela (como é o meu caso).
No caso dos adeptos da missa tradicional pergunto se, quando não podem assistir a essa missa, aceitam assistir à missa tal como ela se celebra actualmente, ou se preferem não assistir a missa nenhuma nessa situação.
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