terça-feira, 5 de Maio de 2009

A intolerância católica

(Sermão pregado na catedral de Chartres em 1841 que continua muito actual.)

Meus irmãos,

O nosso século clama: "tolerância, tolerância". Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais do que a franqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distingamos as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos e assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e ateia. Ela exprime não a tolerância civil, como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais se possam exercer por amor à tranquilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária, se assim o pedirem as circunstâncias, como outros antes de mim já observaram.

Deixo porém este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade e é intolerante em relação às doutrinas erróneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade e é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora para que venha em nossa ajuda e invoque para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por consequência ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação aniquila-se se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la sob pena de se ser despojado dela bem cedo.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. O que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 e 2 fazem 4? Se vierdes me dizer que 2 e 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 e 2 fazem 4...

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: "unus Dóminus, una fides, unum baptisma". Há, no céu, um só Senhor: unus Dóminus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dóminus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo e o filósofo de Genebra [Rousseau] disse, falando do Salvador dos homens: "Não vejo que o meu divino Mestre tenha formulado subtilezas sobre o dogma". Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou subtilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém se recusar a comer a minha carne e a beber o meu sangre, não terá parte no meu reino. Confesso que nisso não há subtilezas, há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou os seus apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou subtilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros - eram todos demónios - não eram
exclusivos, toleravam-se uns aos outros: Satanás não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando as suas conquistas, multiplicava os seus deuses e o estudo da sua mitologia complica-se na mesma proporção do que o da sua geografia. O triunfador que subia ao capitólio, fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A maior parte das vezes, em virtude de um senatus-consultus, os ídolos dos bárbaros confundiam-se desde então com o domínio da pátria e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o cristianismo quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judeia tinha-se tornado numa província romana. Roma, acostumada a receber e a conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judeia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades do seu oratório, como também se viu mais tarde um outro César propôr prestar-se-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a verificar-se: as multidões de ídolos que viam, de ordinário e sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dóminus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era um irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, dos quais se admitira o culto, não queriam admitir o culto da nação; numa palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi aí então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificaram as torturas dos cristãos. Eles não falaram mal da sua religião, do seu Deus, do seu Cristo, das suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles censuram-nos somente por não poderem suportar outra religião que não seja a sua. "Eu não tinha dúvidas", diz Plínio o jovem, "que apesar do seu dogma, não era preciso punir a sua teimosia e a sua obstinação inflexível": pervicaciam et inflexibilem obstinationem. "Não são criminosos", diz Tácito, "mas são intolerantes, misantropos, inimigos do género humano. Há neles uma fé teimosa nos seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos": apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judeia. "Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis", dizia este sofista, "nisso não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião dos seus pais para abraçarem uma diferente! Mas se os judeus, ou os cristãos, querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime do que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus do que os outros".

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável da sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra do que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé.
Porquê os concílios? Para frear os desvios de pensamento, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; fazemos profissão disto; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos da sua origem; ofereceu ao exame da razão factos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente a sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma consequência inevitável que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal e qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar a Igreja Católica pela sua intolerância dogmática, pela sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar a sentinela por ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar a esposa por ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos pelo que ouvimos falar sobre todas estas questões, até por pessoas de bom-senso. A lógica falta-lhes desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo do que o símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas umas às outras; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode chegar aí, não sobra mais nenhuma moral incómoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe do que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do catecismo genebrino, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são más.

A filosofia do século XIX espalha-se por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada de progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada de falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem ser reconciliadas; que o erro não é possível ao Homem, a menos que ele se despoje da sua humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer que possuem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira religião seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual juntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o cristianismo que crê no Messias que veio e o judaísmo que o ainda espera; o catolicismo que obedece ao Papa, o protestantismo que olha o Papa como o anti-Cristo. Tudo isto é reconciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que o seu fundo jamais varie, ela toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens entre as mãos dos quais repousam os destinos da França. -- A que ponto de loucura chegámos nós então? -- Nós chegámos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por consequência intolerante, exclusiva de toda doutrina que não a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu dir-lhes-ei: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer concessões mútuas uns aos outros; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é um objecto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la? Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade pertence-me e eu devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída ou partida. Dizei: esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante e não deixais decompor esta unidade.

2 comentários:

Rick disse...

Prezado Ancie,

Que maravilha de sermão!! Quem é o autor desta proeza evangélica?

Evandro Monteiro disse...

Só gostaria que os cristãos católicos voltasem a essa mentalidade, já que irmãos nossos são assassinados nas terras do porco Islã e os infiéis gozam de plena liberdade de construíerm suas horrendas mesquitas no Ocidente!